sexta-feira, 3 de abril de 2015

Lágrimas nos olhos por mais um
Lágrimas
Me conter não pude
E também não pude mais contar
Quantas as mortes?
Quantas as vidas ceifadas?
Não queria ouvir
E me negava
Os ouvidos se fechavam seletivos
Os olhos cerravam para mais uma
notícia e só
quiçá um número
de um tal Eduardo
Dudu, por ser criança
Foi lá no Rio
Mas já fora aqui na Bahia
No bairro do nordeste
A história se repete
num complexo outrora de alemão
que tornou-se de baiano
neste instante.

terça-feira, 3 de março de 2015

Desolador  foi o choro
Foi a gota de água límpida
escorrendo pelo rosto da criança
que ouvira o estampido de uma bala
 
Ouviam-se soluços de medo
Tristeza travestida de inocência
Impotência foi o que senti
De ter
[que suportar aquela dor de outrem
 
E sempre ela
a bala-pivô
transformando-se em números
 
Inúmeros casos
 
Um assalto
no Castelo
No Cosme nem Damião
 
Mais um na Dois
E mais treze  no Cabula
Quantos óbitos?

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Porque é vida o Orixá
em mim, nego

Porque é vivo o Orixá
eu me nego
...
Porque é vivo o Orixá
eu sou vivo
eu só vivo

eu digo viva!

quinta-feira, 30 de outubro de 2014


Pela janela um espelho
Telha, muita tábua
E tanta madeir’ (ichi!)
é que vejo
É o que me ver

Muito mato.
Mato-me de só olhar uma criança
menina de rosa cor

A fragilidade em meio a escassez
não chega e cega

Cerca de arame
ou bambu chinês
num Brasil brasileiro

Varal de estacas
e panos estendidos
Assim como meu espanto

Um céu azul de nuvens poucas em contraste
com chão de barro
com asfalto de meio fio, meu fio

Água de balde e frio intenso
de calor
Num condomínio qualquer

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Eis que me vem à mente a imagem da capoeira sendo perseguida, como capoeiragem, ou ainda, como vadiagem. Capoeira como crime. Criminosa. Por isso mesmo, condenável pelas autoridades do século XIX.



Todavia, com o passar do tempo, já no século XX, a capoeira teve enfim a chance de ser reconhecida como arte genuinamente brasileira pelo então presidente Getúlio Vargas. Podendo, assim, atravessar o atlântico, chegando a virar coisa de “gringo” e, em alguns casos, apenas deles, mas isso é outra história.

Hoje, porém, é possível ver essa dança luta, graças ao esforço de muitos mestres e professores anônimos, adentrando o espaço formal e conservador da escola_pública principalmente_através do programa Mais Educação. Quem diria? A capoeira, por tanto tempo perseguida, hoje frequenta os bancos escolares, inclusive, aqueles acadêmicos.
Capoeira arteira e de sotaque.

Infelizmente, o frequentar da capoeira a tais espaços não se deu de forma harmoniosa, já que quiseram uma capoeira com método; com começo, meio e fim.  Quiseram um mestre com diploma, quiçá, certificado. Um mestre independente por muito tempo não foi bem quisto. Não era o foco um mestre baseado em experiências adquiridas no dia a dia da capoeira: uma roda, um armar de berimbau, uma palma rítmica envolvente, um reverenciar daquele que é o leme da capoeira, o berimbau. “A palma de Bimba é um, dois, três”.

Dessa forma, lá se foi o mestre em busca do bendito diploma. Não para satisfazer os burocratas e preconceituosos. Mas, sim, porque entende ele que, estando inserido no espaço da periferia, onde historicamente nós, jovens e negros, temos sido desprovidos de referências positivas, faz-se necessário estudar com afinco e dedicação, como forma de demonstrar que outra história é possível. Por tudo isto, parabéns, Mestre Timbó. Parabéns pelo esforço. Parabéns pelo canudo, que é simbólico, mas é preciso. Só nós sabemos.

terça-feira, 7 de outubro de 2014


Maria descia
batendo palmas
Esbravejava Maria

Olhares em Maria
Fitaram Maria
Ela ia
andando

Parou à porta Maria
Gritou.
Cobrou.

As palmas eram secas
Pedras ao longe
Risco na porta
E parede
E janelas quebradas

Maria sujou a tinta
por um instante
e por dois
Enquanto brotam cédulas
pela fenda rasteira
da porta

Essa Maria...


domingo, 5 de outubro de 2014


Moscou
pretérito perfeito

Moscou de moscar
é gíria
Verbo criado
Falado

Larguei o verbo, Moscou 


Mais que um verbo
Advérbio de lugar
Um só lugar em três
É um
É dois
É três
Parece jogo de criança
Esconde-esconde

Mostra-se vivência de adulto

E era barro
e era gato
inanimado era

Gambiarra, um resumo
Uma síntese se quer
daquela depressão
Rodeada de escadas

E cada escada
mil degraus
Subi de grau
Subi degrau era rotina
Menino, velho, menina
bastava subir.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Respirar candomblé é acordar cedo em silêncio
Bater paó, saudando os orixás-santos em cada canto do ilé

É ter Tempo pra si de ver o céu de um modo único azul
Por ora, nublado
ou em crepúsculo-aurora

Respirar candomblé é ouvir o bater de palmas exaltadas
no círculo-barracão
E ver sorrisos largos de Glórias

É ouvir o tic nervoso tac de uma máquina de costura
E sentir o cair d’água no chão a cada banho de água cristalina
omí orò

É entender o despachar da porta a cada entrada de irmão em direções três:
Como o tridente-falo de Exú,
O temido.
O querido.
O.

É perceber cada conta coral,
ladigbà
barras de saia
e adjà

O cantar da conquém
O cacarejar do galo
O berrar do bode
O silenciar do ibí
O apaziguar do pombo

É usar um branco de doer as vistas
É a promoção da limpeza-ebó
da limpeza do espaço para o espaço-orun

E conviver com as folhas de Ossain
Espada de Ogum
de Yansã espada
de Oxossi
e bete branco
e akokô
e arueira

Comigo ninguém pode!

Respirar candomblé é sentir arrepios causados por uma voz emocionada entoante de rezas-cantigas de Exú a Oxalá.




quinta-feira, 12 de setembro de 2013


Como começar um texto que perpassa pelo corpo? Esta foi a inquietação que hoje me afligiu ao tentar iniciar este texto, que perpassa pelo corpo não de maneira genérica, mas, contrariamente, de maneira específica, sendo esse corpo, um corpo negro, corpo feminino. 

Nesta data, 12 de setembro de 2013, defendeu, no LAB 1 da faculdade de  Educação, a monografia intitulada  “A articulação do atendimento educacional especializado com a educação infantil: um estudo de caso” a, até então estudante, Eunice Uzeda, minha esposa.

Na banca, três professoras: uma doutora, uma doutoranda e uma mestra. Como resultado, após toda a reflexão que o trabalho exige, um dez. Um dez que demorou para fazer a “ficha cair”. Dez, o grau máximo para uma sociedade meritocrática, que valoriza as pessoas com base nos méritos pessoais, mesmo tendo elas oportunidades diferentes. 

Pois bem, vamos em frente. Não sei para ela, mas, para mim, esse dez é representativo. Essa nota-conceito (excelente) tem muito a dizer sobre uma mulher negra, pobre, periférica, a qual traz, querendo ou não_e sei, ela quer_uma carga histórica de todo um grupo ético-racial excluído dos postos de poder, dos lugares de destaque na sociedade, dos bancos da ciência, da Academia, enfim.

Presenciar isso pra mim, também homem negro e periférico, que compreende que o lugar da mulher é outro, e que o lugar da mulher negra não tem igual, teve reflexos mil, efeitos vários.

Me fez viajar no tempo, tempo aquele em que eu era membro de uma biblioteca comunitária na invasão do Moscou, no bairro de Castelo Branco e lembrar das palavras de Maísa Flores, de que, nós negros, temos outras histórias para serem mostradas, para serem contadas, para além das cenas de violências expostas em “programas de humor” como se liga bocão, na mira (sic) etc. 
Presenciar essa cena reacendeu em mim uma revolta positiva, canalizada, no sentido de que é nesse lugar que devemos estar, que podemos estar, que podemos!, como diria Obama, presidente esse que, apesar dos equívocos, exerce influência positiva sobre as mentes de crianças e adultos ao redor do mundo. Influência essa tão necessária para elevar a autoestima da população negra, principalmente, num país como Brasil que, como bem mostrou Ana Célia da Silva em seu livro “A Discriminação do Negro no Livro Didático” anda bastante abalada, desde a infância.

Foi então que me peguei ouvindo o Ilê, ouvindo suas músicas “População magoada”, “A esperança de um povo”, “Canto sideral”, “Tentação negra”, entre outras e refletindo sobre a importância desse bloco afro, bem como a do Olodum, entre outros, justamente, nesse sentido de nos colocar para cima numa sociedade que insiste no contrário. 

Certamente, esse dez não é apenas de Eunice Uzeda, pedagoga, formada pela UFBA. É de Zumbi, Lucas Dantas de Amorim Torres, Luís Gonzaga das Virgens e Veiga, Manoel Faustino Santos Lira e João de Deus do Nascimento. É de Malcom X, de Rosa Parks, de Steve Biko, de Joseanne Guedes, De Madalena e Lourdes, mães guerreiras,  de Maísa Flores, de Cristina e Cristiane, de Kris Aurora, de Franci Sousa, de Hilton Sá e família, de Valdeluce Nascimento, de Uilians Souza, de Jocevaldo Santiago, de Lélia Gonzáles, de Lívia Natália, de Dyane Brito, de Florentina da Silva, de Denisson Palumbo, dos Panteras. Esse dez é da invasão do Moscou; da Avenida Peixe; de Saramandaia; da Plataforma, de Alexandre Alves e de tant@s outr@s.

Esse dez é das escolas públicas fechadas a cada ano, das escolas sem aula por dias afins, de todos os terreiros, dos ônibus lotados de domésticas e garis, profissões simbólicas!; é das pessoas pobres à espera de atendimento nos hospitais públicos e postos, onde, quando muitos médicos não “descobrem” o que não temos, não nos tocam nem nos olham nos olhos. Esse dez, como visto, é um dez coletivo, como tanto outros omitidos por parte de uma estrutura racista como a universidade pública.

Asè!